Mateus Solano

Ator consagrado na TV, no teatro e no cinema, Solano fala com exclusividade para a Revista Expressão ABC e Litoral sobre os desafios da carreira, a importância da arte em tempos de mudança e como concilia a vida pessoal com a intensidade dos palcos

Há artistas que apenas vivem seus personagens, e há aqueles que, além de interpretá-los, deixam neles uma marca tão profunda que se tornam parte da memória coletiva de quem assiste. Mateus Solano faz parte desse segundo grupo. Sua presença em cena não apenas ocupa o espaço, ela o transforma.

Com uma carreira sólida, o ator conquistou o grande público em novelas que ficaram guardadas na memória afetiva dos brasileiros e, ao mesmo tempo, brilhou no teatro e no cinema, explorando papéis desafiadores que revelam muito além da popularidade da televisão.

Versátil, Solano sabe provocar risos, emocionar e inspirar reflexões. Seja dando vida a personagens intensos ou emprestando sua voz a causas em que acredita, ele vai além do ofício de ator: tornou-se uma figura admirada pela forma como usa a arte para dialogar com o mundo e provocar mudanças.

Nesta entrevista exclusiva, ele abre o coração sobre os bastidores da carreira, relembra papéis inesquecíveis, compartilha inquietações de um artista em um país em constante transformação e fala sobre como encontrou equilíbrio entre a intensidade dos palcos e a vida pessoal. Confira a seguir a entrevista completa e descubra o que move o ator:

Expressão: Mateus, depois de quase 30 anos de carreira, você encara agora o seu primeiro monólogo, “O Figurante”, escrito a seis mãos com Isabel Teixeira e Miguel Thiré. Como nasceu a ideia de contar essa história e qual foi o maior desafio em estar sozinho no palco, levando o público por essa jornada?
Mateus Solano: Resolvi fazer um monólogo agora com quase 30 anos de carreira porque finalmente me senti preparado para tal. Estar sozinho no palco levando para a cena questões minhas e esperando que haja reflexão sobre elas por parte do público, é um ato de coragem. E eu tenho ficado muito feliz com a resposta da plateia ao “O Figurante” por todo o Brasil e Portugal.

Exp.: Você e Miguel já tiveram experiências bem-sucedidas juntos, como em “Selfie”. Agora, além da parceria no texto, ele também dirige o espetáculo. Como foi esse reencontro profissional e o que essa parceria agrega à sua performance em cena?
M.S.: A parceria com o Miguel Thiré é o que eu tenho mais próximo a uma companhia de teatro. Isso porque a gente vem desenvolvendo uma linguagem nos nossos espetáculos. É a primeira vez que o Miguel não divide a cena comigo, dessa vez ele me dirige. Mas resolvemos seguir com a nossa pesquisa sobre teatro essencial. É uma peça que traz a mímica como o único recurso para desenhar no espaço o que se passa à volta de Augusto, o figurante. Portanto, é um trabalho amadurecido que já nos valeu algumas indicações e um prêmio pela expressão corporal.

Exp.: Indo agora para sua atuação na TV, o Félix, de ‘Amor à Vida’, foi um personagem muito marcante, acredito que para você e todos os telespectadores, tanto que acabou entrando para a história da TV brasileira. Como foi o seu processo de preparação para dar vida a ele na época e quais foram os maiores desafios em construir o personagem?
M.S.: Nossa, faz tanto tempo… Lembro de estudar sobre a maldade. Lembro de uma preparação muito rica com Sérgio Penna. Lembro de pesquisar o sotaque paulistano e de estudar sobre São Paulo. Félix foi uma grande responsabilidade e um grande desafio desde o início. Até encontrar o tom eu levei umas três semanas e fui aprendendo muito sobre ele durante o seu percurso emocional, tudo que ele foi passando em tantos meses de novela. No início, o medo que a Globo tinha era de vilanizar um homossexual, mas isso acabou não se tornando uma questão importante. Para mim o maior desafio era dar credibilidade a frases como: “Eu devo ter picado salsinha na tábua dos dez mandamentos para ter que ouvir uma coisa dessas”.

Exp.: Você transitou por papéis muito diferentes — de Félix ao divertido Zé Bonitinho, da “Nova Escolinha do Professor Raimundo”, até personagens mais densos como em “Liberdade, Liberdade”. O que te atrai quando escolhe um personagem: o desafio de sair da zona de conforto ou a conexão pessoal com a história?
M.S.: É uma boa pergunta… Hoje a minha resposta seria a de que quanto mais diferente da gente, mais interessante e rico pode se tornar um personagem. Quando é muito parecido conosco, talvez a gente fique mais perdido… Afinal, quem é que conhece a si mesmo?

Exp.: Além da TV e do cinema, você rodou o Brasil e até outros países com peças como “Selfie” e “Irma Vap”. O teatro ainda é o lugar onde você sente mais liberdade criativa, ou a TV e o cinema também já ocupam esse espaço para você?
M.S.: Acaba que é no teatro que eu desenvolvo os meus projetos. Nunca desenvolvi um projeto para o audiovisual. Portanto, os trabalhos mais autorais são em cima do palco, enquanto os trabalhos nas telas são fatalmente personagens que me chamaram para fazer. Além disso, o palco é a casa do ator, diferente das telas, onde existe uma equipe muito maior para que a obra possa acontecer.

Exp.: Nos últimos anos, você vem se destacando também como ativista ambiental. Como tem sido conciliar essa militância com a carreira artística e de que forma você acredita que a sua visibilidade pode ajudar nessa causa?
M.S.: A minha defesa do meio ambiente é algo que eu faço naturalmente como cidadão. Não tem nada a ver com o artista. É claro que eu uso da minha credibilidade e do amor que as pessoas têm pelo meu trabalho para chamar atenção para essas questões, mas é algo que faço naturalmente. Não somos mais educados a sermos cidadãos, mas sim meros consumidores. É urgente que despertemos para isso.

Exp.: Com um currículo tão extenso e diversificado, o que ainda falta para Mateus Solano realizar? Você tem vontade de dirigir, escrever mais ou até investir em projetos para plataformas de streaming?
M.S.: Não sinto que me falta nada, mas sei que há muito ainda o que fazer.
Tenho uma série de projetos para o teatro e vou aceitando os projetos no audiovisual que me parecem interessantes ao longo do caminho.

Exp.: Ao longo desses anos, você construiu uma base fiel de admiradores. Qual foi a mensagem ou encontro mais marcante que já recebeu de alguém impactado pelo seu trabalho?
M.S.: Uma coisa que me deixa muito feliz é ver as pessoas virem falar comigo no final de um espetáculo, por exemplo, e eu perceber que elas foram tocadas, modificadas ou, no mínimo, entretidas e voltam para casa mais felizes do que saíram para assistir ao espetáculo. É muito gratificante para mim ver o quanto a minha arte pode mexer com as pessoas de dentro para fora. Sem dúvida, o personagem Félix foi o que mais me trouxe esse tipo de resposta e, de vez em quando, recebo um abraço emocionado de alguém que teve a vida transformada pelo personagem: filhos que voltaram a falar com os pais e pessoas amarguradas que resolveram se assumir. É muito forte isso!

Expr.: Por trás dos palcos e das câmeras, quem é o Mateus Solano? Quais são os momentos simples ou hobbies que te ajudam a equilibrar a intensidade da vida artística?
M.S.: Gosto de fazer exercícios físicos, corrida, trilhas, bicicleta, meditação e muitos livros.