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“O preconceito e a estigmatização das pessoas com deficiência ilustram obstáculos ainda presentes em nossa sociedade”

O fundador do Instituto Rodrigo Mendes, começou sua militância em prol das pessoas com deficiência física após ter sido vítima, em 1990, de um assalto ao chegar em casa. O estudante, que sonhava em ser médico, na época com 18 anos, foi baleado no pescoço, ocasionando uma lesão medular e a imobilidade abaixo dos ombros. Durante a sua reabilitação, por estímulo de um artista plástico, começou a pintar, utilizando a boca. E, com a tecnologia, começou a fazer desenhos usando, por exemplo, um computador comandado por movimentos da cabeça, essa possibilidade o deixava animado. Porém observar que outras pessoas nas mesmas condições que ele, mas com menos recursos financeiros, não tinham o mesmo acesso a essa tecnologia o deixava entristecido. Dessa forma, fundou o Instituto que leva o seu nome, com o objetivo de oferecer educação e acessibilidade à todos. No início, com poucos recursos, advindos das suas pinturas e hoje apoiado pela rede de parceiros do setor público, privado e da sociedade civil. A missão da organização sem fins lucrativos é colaborar para que toda pessoa com deficiência tenha uma educação de qualidade na escola comum. “Desde 1994, já passaram pelas nossas formações e receberam nosso apoio 2,6 mil profissionais de 20 estados brasileiros e 49 cidades. A estimativa é que, aproximadamente, 1,6 milhão de estudantes tenham sido impactados”, explica Rodrigo, que possui mestrado pela FGV, é palestrante e já foi líder do Fórum Econômico Mundial, tendo ocupado a posição de nomes como Bill Gates e Tony Blair. Confira a entrevista na íntegra:

Expressão: Quando sentiu a necessidade de fundar o Instituto Rodrigo Mendes?
Rodrigo Mendes: Enquanto estava em processo de reabilitação, conheci outras pessoas que, apesar de estarem na mesma situação em que eu me encontrava, tinham mais dificuldades por não possuírem a mesma condição econômica. Essa constatação me deixou muito desconfortável e decidi tentar mudar esse contexto de desigualdade, fundando o Instituto Rodrigo Mendes, em 1994.

Expr.: Quais os principais projetos em curso no Instituto atualmente?
R.M.: Acreditamos que a escola inclusiva oferece a seus estudantes a preciosa oportunidade de convívio com a heterogeneidade humana e incentiva o desenvolvimento de competências imprescindíveis para o mundo contemporâneo, como a capacidade de nos relacionarmos com as diferenças e de nos colocarmos no lugar do outro. Por isso, oferecemos formação sobre educação inclusiva para educadores, gestores escolares e integrantes de secretarias de educação. Os conteúdos sobre educação inclusiva que produzimos são publicados no portal Diversa (diversa.org.br), plataforma online que tem como objetivo oferecer referências sobre práticas exemplares do acolhimento das diferenças na sala de aula. Além de conteúdos teóricos e práticos, o Diversa possui um fórum que promove discussões sobre dificuldades enfrentadas por educadores e familiares de estudantes no processo de inclusão.

Expr.: Como você analisa a inclusão da pessoa com deficiência hoje na sociedade? Temos muito a progredir ainda?
R.M.: No Brasil, pelo menos 30 milhões de pessoas têm algum tipo de deficiência. Essa parcela da população envolve crianças e adolescentes que enfrentam enormes barreiras para exercer a cidadania e construir sua autonomia com dignidade. Nos últimos 20 anos, tivemos avanços significativos no processo de inclusão, principalmente no que se refere às leis e políticas públicas. Merecem destaque a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008) e a Lei Brasileira de Inclusão (2015), ambas inspiradas na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, publicada pela ONU em 2006. São inquestionáveis conquistas como o crescimento do número de matrículas de pessoas com deficiência no ensino formal. No entanto, ainda temos grandes barreiras para eliminarmos.

Expr.: Acredita que a tecnologia tem avançado e melhorado a qualidade de vida de pessoas com deficiência?
R.M.: Sim, a tecnologia é uma poderosa ferramenta para o processo de eliminação das barreiras. É o caso dos softwares que fazem leitura de telas para auxiliar pessoas com deficiência visual a usarem computadores e smartphones. Mas é bom lembrar que a tecnologia, por si só, não é capaz de resolver todas as questões que geram exclusão, como as barreiras decorrentes da nossa atitude.

Expr.: A tecnologia é acessível financeiramente?
R.M.: O acesso à tecnologia melhorou muito nas últimas décadas. Atualmente, dispomos de inúmeros exemplos de aplicativos e softwares gratuitos ou de baixo custo. Da mesma forma, os hardwares e dispositivos ficaram mais baratos ao longo do tempo.

Expr.: Como foi a experiência de dirigir um carro de corrida usando comandos cerebrais?
R.M.: A última coisa que eu fiz antes de sofrer a lesão medular foi, justamente, dirigir. Curiosamente, 27 anos depois, pude novamente ter a experiência de guiar um carro, graças à campanha “Respeito”, criada pela Globo. Quando me dei conta, estava dentro de um carro de corrida que não tinha nem volante nem pedais, usando um capacete criado para eu pilotar com o pensamento. O líder da equipe me perguntou se estava tudo ok e fechou a viseira. Todo mundo desapareceu do meu raio de visão. Sobraram eu, o carro e a pista… Respirei fundo, me concentrei e dei o comando para acelerar e o carro arrancou. Foi uma experiência incrível. Além do desejo de conhecer a nova tecnologia que permitia dirigir o carro de F1 com comandos cerebrais, minha expectativa sempre foi aproveitar o potencial da mídia para construir uma mensagem positiva, que avançasse a discussão sobre inclusão, indo além de uma abordagem convencional e limitada. Acredito que conseguimos isso.

Expr.: Como você analisa a educação inclusiva no Brasil? As escolas públicas e particulares têm conseguido fazer a verdadeira inclusão?
R.M.: Mesmo reconhecendo os obstáculos que ainda temos pela frente, podemos dizer que vivemos numa nova era em relação à essa temática. Tivemos extraordinários avanços, tanto no campo dos direitos humanos, como no próprio âmbito da pedagogia, que favoreceram a participação de todos no ambiente escolar. Basta pensarmos que, até pouco tempo, as únicas opções para uma criança com deficiência eram a escola especial ou a absoluta exclusão. Os números do Censo Escolar mostram um crescimento significativo no número de estudantes com deficiência em escolas comuns. Em 2004, dos 566 mil alunos público-alvo da educação especial matriculados, apenas 34% frequentavam escolas regulares. Com os avanços das políticas públicas, principalmente após a criação da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, em vigor desde 2008, esta lógica se inverteu. Em 2017, dos 827 mil estudantes público-alvo da educação especial matriculados na escola, aproximadamente 91% estão nas salas comuns.Nosso desafio é garantir que estes estudantes, além de matriculados, permaneçam e se desenvolvam na escola. Por isso, a implementação do modelo educacional inclusivo é um processo gradativo, contínuo e contextual, que demanda ações relacionadas a políticas públicas, gestão escolar, estratégias pedagógicas, famílias e parcerias.

Expr.: Atualmente você viaja pelo Brasil todo para palestrar também sobre resiliência. O que pode falar para os leitores da revista sobre esse tema?
R.M.: Minha prioridade é contribuir com reflexões que favoreçam a construção de uma sociedade orientada pela igualdade de direitos e pela valorização das diferenças humanas.

https://institutorodrigomendes.org.br/
(11) 3726-8418

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