Luana Zucoloto

“Nem nos meus melhores sonhos eu imaginava ser referência de nada. Mas ao mesmo tempo foi um marco de validação: mostrou que o que eu estava criando era algo com impacto real.”

De publicitária à fenômeno do humor: Luana Zucoloto transformou os perrengues do mundo corporativo em matéria-prima para fazer rir e refletir. Formada pela Cásper Líbero, ela conquistou milhões com vídeos bem-humorados que viralizaram ao retratar, com ironia e autenticidade, os absurdos da vida de escritório.

O que começou como uma válvula de escape virou carreira e propósito. Em uma entrevista exclusiva à expressão, ela revela como teve coragem de abandonar o CLT, os desafios de viver da arte, suas inspirações, e como o humor virou ferramenta de cura para quem assiste. Nomeada pela Forbes Under 30 e dona do espetáculo “Esse Show Poderia Ser Um E-mail”, ela mostra que rir do trabalho pode ser mais transformador do que parece. Confira:

Expressão: Formada em publicidade pela Casper Líbero, você ficou muito conhecida por seus vídeos humorísticos que viralizaram. Tendo em vista que trabalhava no mercado corporativo de onde surgiu a coragem de largar a área para se dedicar integralmente à comédia? Quais foram os maiores desafios e inseguranças nesse processo?
Luana Zucoloto: Eu sempre brinco que não fui eu que escolhi largar o corporativo, foi o corporativo que me largou primeiro (risos). Desde o início do CLT, eu já sentia que aquele não era o caminho que eu queria seguir pro resto da vida. A comédia entrou como uma válvula de escape: eu fazia teatro e comecei a postar vídeos tirando sarro das situações absurdas do trabalho. Quando esses vídeos viralizaram, percebi que aquilo podia ser mais do que um hobby. O maior desafio foi encarar a insegurança financeira e aquela dúvida cruel: “será que eu sou boa o suficiente pra viver disso?”. Foi um salto de fé, mas também de muito planejamento — e eu só tive coragem porque sempre tive o incentivo da minha família (que valorizou a arte dentro de casa) e porque me considero uma mulher segura das minhas escolhas.

Exp.: Seus shows e conteúdos têm uma pegada de humor de observação, retratando situações do cotidiano com as quais o público se identifica. Há algum humorista que você considera sua grande inspiração e que tenha influenciado seu estilo?
L.Z.: Acho que a comédia me influenciou de várias formas. Tem muitos comediantes, homens e mulheres, brasileiros e internacionais, que eu admiro e de quem tiro inspirações diferentes. Mas, acima de tudo, sempre busquei ser autêntica, imprimir a minha visão de mundo e não repetir fórmulas já conhecidas. Aqui no Brasil, por exemplo, admiro muito a Tatá Werneck, que mostrou que é possível ser mulher e dominar a cena com humor inteligente, sem precisar se encaixar em um formato já estabelecido.

Exp.: Qual foi a situação mais inusitada ou hilária que você viveu no ambiente corporativo e que se tornou um ponto alto para o seu repertório?
L.Z.: Nossa, várias! Mas acho que a mais inusitada — e que eu nunca tinha contado — foi numa reunião online. Um colega estava compartilhando a tela dele e, no meio da reunião, esqueceu que todo mundo estava vendo. Ele simplesmente abriu o chat com o chefe e começou a falar mal de mim… com todos assistindo, inclusive eu.

Exp.: Em 2024, você foi nomeada uma das Forbes Under 30. O que esse reconhecimento significa para você, e como ele impacta sua percepção sobre o seu trabalho e a sua carreira?
L.Z.: Foi surreal. Nem nos meus melhores sonhos eu imaginava ser referência de nada. Mas ao mesmo tempo foi um marco de validação: mostrou que o que eu estava criando era algo com impacto real. Me deu mais confiança de que a comédia é, sim, além de uma carreira sólida hoje, é um propósito de vida.

“ O digital é a vitrine, é onde as pessoas me conhecem, compartilham, se identificam. O palco é onde essa relação se aprofunda, porque nada substitui a energia ao vivo”

Exp.: Seu show de stand-up, “Esse Show Poderia Ser Um E-mail”, é um sucesso de público. Considerando o tema como você constrói a narrativa e a estrutura do espetáculo para manter a plateia engajada?
L.Z.: Eu construo como se fosse uma grande reunião que, dessa vez, realmente vale a pena. Tem começo, meio e fim, mas dentro disso eu vou costurando várias situações do dia a dia: o chefe, o happy hour, as fofocas, o home office… A narrativa é feita para que as pessoas se reconheçam em cada bloco e tenham aquela sensação de: “meu Deus, isso já aconteceu comigo”. No final, ainda deixo uma reflexão, mostrando o ciclo vicioso que a gente vive dentro do mundo corporativo e que acaba sempre nos levando para o mesmo lugar. Essa identificação, junto com a reflexão, humor e ironia é o que mantém a plateia comigo do início ao fim.

Exp.: Você compartilha bastante sobre a sua vida de comediante nas redes sociais, desde os bastidores até a rotina de shows. Qual foi a experiência mais marcante que você teve com o público e que te fez pensar: “É por isso que eu faço o que faço”?
L.Z.: Várias vezes, depois do show, quando as pessoas vêm tirar foto comigo, elas acabam desabafando sobre situações horríveis que viveram no trabalho: problemas, estresse, pressão… e muitas me dizem que rir naquela noite foi um alívio que não sentiam há meses. Esse tipo de retorno é imensurável. É aí que eu percebo que não estou só contando piada, mas oferecendo uma pausa, uma leveza que às vezes a pessoa realmente precisa. Já recebi relatos de gente em depressão ou passando por crises de ansiedade que, através do humor, conseguiu ressignificar aquele peso. É muito poderoso perceber que, de alguma forma, meu trabalho ajuda as pessoas a refletirem sobre como o emprego delas impacta diretamente na saúde mental — e que o riso pode ser um respiro, quase um ato de cura.

Exp.: Você é uma das comediantes que soube usar o poder das redes sociais para criar uma conexão genuína com o público. Como você enxerga a relação entre a comédia de palco e a produção de conteúdo digital? Elas se complementam ou competem?
L.Z.: Pra mim elas se complementam totalmente. O digital é a vitrine, é onde as pessoas me conhecem, compartilham, se identificam. O palco é onde essa relação se aprofunda, porque nada substitui a energia ao vivo. Uma retroalimenta a outra: o que eu testo na internet vira material para o palco, e o que funciona no palco volta pro digital com ainda mais força.