Sophia Abrahão

De volta ao teatro, Sophia Abrahão revisita um clássico da dramaturgia brasileira e compartilha as reflexões que a levaram a abraçar uma personagem repleta de contradições

Versátil e inquieta, Sophia Abrahão construiu uma carreira que atravessa diferentes linguagens artísticas. Depois de iniciar sua trajetória como modelo, consolidou seu nome na televisão em produções como Malhação (Rede Globo) e Rebelde (Record), expandiu sua atuação para a música, apresentou programas de entretenimento, escreveu livros e seguiu investindo em personagens que refletissem sua constante busca por novos desafios.

Ao longo dos anos, tornou-se um dos nomes mais conhecidos de sua geração justamente por não se limitar a um único formato, transitando com naturalidade entre a TV, o cinema, a internet e o teatro.

Agora, Sophia volta aos palcos com a peça Caixa 2, texto de Juca de Oliveira que ganha uma nova montagem, provando que algumas histórias permanecem atuais. Escrita nos anos 1990, a peça utiliza a comédia para abordar temas como corrupção, jogos de poder, interesses políticos e a banalização de práticas que continuam fazendo parte do cotidiano brasileiro. Entre situações cômicas e diálogos afiados, a obra convida o público a rir, mas também a refletir sobre uma realidade que parece se repetir geração após geração.

Na montagem, Sophia interpreta Ângela, uma personagem repleta de nuances, que vai muito além de ocupar um lugar dentro da engrenagem de poder retratada na história. Com diferentes máscaras sociais e motivações próprias, ela representa as contradições de quem aprende a sobreviver em um ambiente marcado por disputas de influência e interesses pessoais. Para a atriz, justamente essa complexidade foi o que despertou seu interesse pelo papel e guiou a construção da personagem.

Em entrevista à Expressão, Sophia fala sobre o processo e a responsabilidade de dar vida à Ângela, a potência da comédia como ferramenta de crítica social e a relação intensa que mantém com o teatro. Ela também reflete sobre o momento atual de sua carreira, a importância de escolher projetos com propósito e os desafios artísticos que ainda deseja enfrentar nos próximos anos. Confira:

Expressão: Em Caixa 2, você interpreta Ângela, uma personagem inserida nesse universo de poder, interesses e corrupção. O que mais te chamou atenção nela no primeiro contato com o texto, e o que te motivou a dar vida a essa história?
Sophia Abrahão: O que mais me chamou a atenção na Ângela foi a complexidade dela dentro desse cenário de poder. No primeiro contato com o texto, percebi que ela não é apenas uma peça no tabuleiro, ela tem suas próprias motivações e camadas que a tornam muito humana, apesar do ambiente de corrupção ao redor. O que me motivou foi justamente o desafio de humanizar essa história e trazer à tona as contradições dela.

Expr.: A peça foi escrita nos anos 90 e ainda parece extremamente atual. Isso te surpreendeu ou já era algo que você esperava?
S.A.: Infelizmente, não me surpreende, mas me faz refletir muito. É um texto dos anos 90, mas os temas de corrupção e jogos de interesse parecem que foram escritos ontem. É um espelho da nossa sociedade que, tristemente, ainda não envelheceu. Fazemos comédia para aliviar nosso sofrimento e para que pelo menos, durante aquele breve momento da peça, possamos rir da nossa própria desgraça.

Expr.: Como foi entrar em um projeto que aborda corrupção e jogos de poder, mas através da comédia? Você acredita que o humor é uma forma mais potente de fazer o público refletir sobre temas sérios?
S.A.: Abordar temas sérios através da comédia é, para mim, uma das formas mais potentes de arte. O humor desarma o público. Quando a pessoa ri, ela baixa a guarda, e é nesse momento que a crítica entra de forma mais profunda. Acredito que a comédia faz o público refletir sem o peso didático, mas com uma eficácia enorme!

Expr.: Sua personagem participa desse “jogo de interesses”, como você construiu ela dentro desse universo tão irônico e crítico?
S.A.: Para construir a Ângela, eu foquei muito na observação e na ironia que o texto propõe. Ela vive em um universo crítico, então busquei encontrar nela o equilíbrio entre a consciência do que está acontecendo e a adaptação a esse meio. Foi um trabalho de entender como o poder molda os gestos e as falas dela. É uma personagem bem colorida e cheia de nuances. Para cada ocasião ela tem uma máscara social, e construir isso foi um prazer!

“O que me motivou foi justamente o desafio de humanizar essa história e trazer à tona as contradições dela.”

Expr.: Essa é uma obra que também homenageia Juca de Oliveira. Como você enxerga a responsabilidade de dar vida a um texto tão marcante após a morte dele?
S.A.: A responsabilidade de dar vida a um texto do Juca de Oliveira é imensa. Ele é um mestre, e essa peça é uma homenagem ao legado dele. Sinto que é um compromisso com a excelência e que todos nós do elenco, direção, equipe, sabemos que estamos diante de uma obra muito especial! É uma honra e um frio na barriga constante.

Expr.: O espetáculo fala de “normalização da corrupção”. Na sua visão, o teatro ainda consegue provocar mudanças ou questionamentos reais no público?
S.A.: Sobre o teatro provocar mudanças, eu acredito com todo meu coração que sim. O teatro é vivo, acontece no aqui e agora. Essa troca direta com o público cria uma conexão que nenhum outro formato consegue. Quando falamos de “normalização da corrupção” no palco, forçamos o espectador a encarar algo que ele muitas vezes ignora no dia a dia.

Expr.: Tem alguma cena de Caixa 2 que você gostaria de assistir da plateia só pra ver a reação do público?
S.A.: Ah, com certeza as cenas de maior embate irônico, onde as máscaras começam a cair. Eu adoraria ver a expressão do público ao perceber que está rindo de algo que, no fundo, é um reflexo de uma realidade bem dura. Quando o elenco todo está no palco, na cena final da peça, deve ser mágico ver da plateia! Gostaria de ter essa experiência.

Expr.: Você transita entre TV, música, internet e agora teatro. O que o palco te proporciona que os outros formatos não conseguem?
S.A.: O que o palco me proporciona é uma presença absoluta. Na TV ou na internet, temos o corte, a edição. No palco, sou eu, meus colegas e o público. É um lugar de vulnerabilidade e força que me alimenta de uma maneira muito diferente das outras plataformas. Sou simplesmente apaixonada pelo palco e não consigo pensar em ficar afastada do teatro!

Expr.: Hoje, o que mais pesa na sua escolha por um projeto: o desafio artístico, a mensagem que ele carrega ou o momento que você está vivendo?
S.A.: Na minha escolha por projetos hoje, o que mais pesa é o equilíbrio entre o desafio artístico e a mensagem. Eu preciso sentir que aquele papel vai me tirar da zona de conforto, mas também que a obra tem algo a dizer para o mundo. O momento que estou vivendo também influencia, pois busco projetos que tragam outras camadas para a minha carreira! Quanto mais distante de tudo o que eu já fiz, maior a vontade de me jogar em um processo novo!

Expr.: No teatro, ainda existe algum personagem ou tipo de papel que você sente que está “te esperando”, algo que você tem vontade de viver no palco?
S.A.: Ainda sinto que tem muita coisa me esperando. Eu adoraria fazer algo ainda mais visceral, talvez um clássico revisitado ou uma personagem com uma carga dramática bem densa, que explore limites que ainda não toquei no teatro.

Expr.: Ao longo da sua trajetória, o que mudou na forma como você cuida de si mesma e como você tem equilibrado as demandas da carreira com a necessidade de preservar sua saúde emocional e sua individualidade?
S.A.: Ao longo da trajetória, aprendi a ser mais gentil comigo mesma. Hoje, entendo que para entregar o meu melhor no palco ou na tela, minha saúde emocional precisa estar em dia. Aprendi a dizer “não” e a preservar minha individualidade. O equilíbrio entre a carreira e a vida pessoal é o meu maior foco agora.

Expr.: Caixa 2 traz um olhar crítico e muito atual. Esse tipo de projeto influencia suas próximas escolhas? Olhando para frente, o público já pode esperar novidades ou você está vivendo um momento mais de curadoria e construção dos próximos passos da sua carreira?
S.A.: Caixa 2 definitivamente influencia minhas próximas escolhas. Ele me deu um gosto maior pela curadoria, por escolher a dedo o que quero comunicar. O público pode esperar, sim, novidades que seguem essa linha de projetos com propósito e muita dedicação. Estou em um momento de construção de passos muito conscientes.