
Da dança que nasce como resistência no Maranhão ao posto mais desejado do Carnaval carioca, a trajetória de Mileide Mihaile é feita de coragem, disciplina e identidade. Artista desde a adolescência, mãe, empresária e comunicadora, ela construiu uma história onde o corpo fala, a voz representa e a presença transforma. Nesta entrevista exclusiva para Expressão, Mileide abre o coração sobre a arte como fio condutor da vida, a força da maternidade, os bastidores do reinado e a emoção de assumir, pela primeira vez, o posto de Rainha de Bateria da Unidos da Tijuca. Um retrato sensível e potente de uma mulher que carrega no samba, na fé e no propósito a essência de quem faz da própria história um manifesto de resistência, representatividade e amor ao povo do carnaval.
Expressão: Sua história começa no Maranhão e passa por muitos palcos até chegar à Sapucaí. Em que momento você percebeu que a arte seria o fio condutor da sua vida?
Mileide Mihaile: Minha história começa no Maranhão, num lugar onde a arte sempre foi uma forma de existir e resistir. Mas eu percebi que ela seria o fio condutor da minha vida quando entendi que dançar não era só movimento: era comunicação, identidade e voz. Cada palco pelo qual passei confirmou isso.
Exp.: Você costuma dizer que a dança é a linguagem da sua vida. O que ela te ensinou sobre resistência e identidade?
M.M.: A dança me ensinou a ser firme sem perder a leveza. Ela me ensinou a respeitar minhas raízes, meu corpo e minha história. A resistência vem do treino diário, da disciplina e da constância.
Exp.: Você é mãe, empresária e artista, conciliando múltiplos papéis. Como a família, especialmente a maternidade, influencia suas escolhas e te fortalece nos momentos mais desafiadores da carreira?
M.M.: A maternidade muda tudo. Me tornou mais forte, mais consciente e mais responsável com cada escolha que faço. Minha família é meu alicerce emocional. Quando os desafios aparecem (e eles aparecem) é neles que eu me apoio. Ser mãe me lembra diariamente do propósito e do exemplo que quero deixar. Meu filho é a razão do meu viver, tudo gira em torno dele primeiro.
Exp.: A Unidos da Tijuca tem uma história muito forte. O que passou pela sua cabeça ao receber o convite para assumir esse posto e como foi o acolhimento da comunidade e da bateria nesse início de reinado?
M.M.: Receber o convite da Unidos da Tijuca foi um misto de emoção. É uma escola com uma identidade muito forte, um legado de 94 anos para cultura popular brasileira, ou seja, é uma responsabilidade muito grande. Passou um filme na minha cabeça, lembrei de mim ainda criança vendo os desfiles pela TV sonhando em um dia estar aqui, sou só alegria e gratidão. O acolhimento da comunidade e da bateria foi fundamental: me senti abraçada, respeitada e convidada a construir essa história junto. Já me sinto em casa.

Exp.: Depois de oito anos como musa e de reinar em São Paulo, o que muda emocional e simbolicamente ao assumir esse posto no Carnaval carioca?
M.M.: Chegar até aqui é sem duvida um marco na minha trajetória profissional e pessoal. É o reconhecimento de uma trajetória construída com trabalho, dedicação e respeito ao samba. O Carnaval carioca tem uma energia única, uma magia diferente e estar nesse lugar é uma honra que carrego com muita responsabilidade e amor. Estou sempre pensando como retribuir ao povo do samba todo este amor que recebo.
Exp.: Existe alguma batida, ensaio ou momento recente que já ficou marcado no seu coração?
M.M.: Sim. Eu acho que a minha coroação foi um momento histórico para mim, foi uma noite linda, de muita emoção, eu, minha equipe, a escola nos unimos para ser uma grande noite. Eu estava cercada de amigos, familiares, minha mãe e meu filho vieram. A energia, o olhar das pessoas, o som da bateria… foi daqueles momentos que não precisam de explicação. Ficam guardados no coração porque são verdadeiros.
Exp.: O que o público não vê, mas é essencial para que uma Rainha de Bateria esteja pronta para a avenida? Como é sua rotina de preparação física e emocional para ocupar um posto tão exigente?
M.M.: O público não vê o quanto existe de preparo emocional por trás. Não é só físico. É disciplina, abdicação, foco e equilíbrio mental. Eu tenho uma equipe gigantesca por trás de mim, cada um tem uma função, mas eu sou daquelas que gosto de acompanhar tudo de perto. Existe uma entrega real da minha parte, eu vivo o carnaval nos mínimos detalhes, por isso que é muito importante cuidar da saúde mental. Minha rotina envolve treinos, alimentação equilibrada, aulas de samba. Já meu preparo emocional envolve muita oração, descanso, banho de mar, estar em família.
Exp.: Com milhões de seguidores, você entende esse reinado também como uma plataforma de voz e representatividade?
M.M.: Com certeza. Eu tenho consciência do alcance que tenho e da importância de usar essa visibilidade de forma positiva. Entendo esse reinado como uma plataforma de voz e representatividade, principalmente para mulheres, mães e pessoas que vêm de realidades parecidas com a minha.
Exp.: O projeto Bazar Mulher reflete muito dessa sua essência solidária. Como ele dialoga com o momento que você vive agora?
M.M.: O Bazar Mulher foi uma forma que eu encontrei para agradecer a Deus por estar aqui. Entendo que eu nasci para servir e uso a minha imagem para ajudar mulheres. Fico feliz em ser útil na vida de outras mulheres, em colaborar para que as mulheres com câncer possa ter uma vida feliz, com dignidade, amor e respeito. Quero que elas saibam que esta luta é nossa, que juntas somos mais fortes e que somos todas rainhas.
Exp.: Quando as luzes se apagarem e você olhar para essa nova fase da sua trajetória, o que espera sentir e quais sonhos e projetos deseja tirar do papel, tanto no campo profissional quanto pessoal?
M.M.: Espero sentir paz, alegria, orgulho e gratidão. A sensação de missão cumprida, mas também de novos começos. Quero fortalecer meu projeto social, tenho sonho de alcançar mais mulheres. No campo profissional tenho desejo de representar algumas marcas, inclusive internacionais, quem sabe realizar projetos na TV como comunicadora. No que tange a minha vida pessoal estou bem, se meu filho está feliz e com saúde eu já estou mais do que realizada.


























