
Ícone de uma geração que ajudou a colocar o Brasil no mapa da moda internacional, Gianne Albertoni construiu uma carreira que vai muito além das passarelas. Revelada ainda adolescente, ela atravessou décadas se reinventando.
Das campanhas globais aos programas de televisão, do cinema ao universo digital, ela sempre soube se reinventar sem abrir mão da essência que a tornou um dos rostos mais marcantes do fashion nacional. Hoje, entre novos projetos e uma presença cada vez mais estratégica, ela vive uma fase que equilibra maturidade, protagonismo e transformação.
Seu retorno a eventos que marcaram sua trajetória, agora sob um novo olhar, revela não apenas a permanência de um ícone, mas a evolução de uma mulher que acompanha, e muitas vezes antecipa, as mudanças de uma indústria movida pelo efêmero.
Em entrevista exclusiva à Expressão, ela fala sobre recomeços, legado e o que ainda a move depois de tantos capítulos escritos dentro e fora das passarelas. Confira:
Expressão: Pensando no retorno recente do Rio Fashion, e considerando que você desfilou nessa nova fase, participar de um evento como esse desperta em você algo da essência do início da sua trajetória, ou hoje a experiência é vivida de uma forma completamente diferente?
Gianne Albertoni: Reacende, sim. Existe uma energia que é impossível ignorar. O frio na barriga muda, mas não desaparece. Hoje eu tenho mais consciência, mais repertório, mas aquela emoção do começo ainda está ali — talvez até mais bonita, porque vem acompanhada de história.
Exp.: Você começou na moda em um momento em que o Brasil ainda conquistava espaço no cenário internacional e, de certa forma, ajudou a abrir esse caminho. Em que momento você percebeu que não estava apenas construindo uma carreira, mas também um legado?
G.A.: Acho que isso não veio como um momento exato, mas como uma consciência que foi chegando aos poucos. Quando comecei a ver novas gerações se inspirando na minha trajetória, ou quando percebi que a minha história ajudava a abrir caminhos, entendi que não era só sobre mim. A carreira constrói resultados, mas o legado constrói impacto. E isso tem muito mais a ver com o que você deixa nas pessoas do que com o que você conquista.
Exp.: Ao longo de mais de três décadas, você atravessou diferentes eras da moda, das supermodels aos influenciadores digitais. O que, na sua essência, nunca mudou em você, apesar de tudo ter mudado ao redor?
G.A.: A minha curiosidade e a minha vontade de evoluir. Sempre fui muito inquieta, no melhor sentido. Nunca me acomodei em um lugar só. Mesmo quando tudo muda, essa busca por crescer, aprender e me reinventar continua sendo o que me move.
Exp.: Você dividiu espaço com nomes como Naomi Campbell e Kate Moss. Hoje, olhando com distanciamento, o que aquela fase te ensinou sobre poder, imagem e identidade?
G.A.: Me ensinou que imagem pode abrir portas, mas identidade é o que sustenta tudo. Eu vi de perto o poder da presença, mas também entendi que, sem verdade, isso não se sustenta por muito tempo. Foi uma fase muito intensa, e talvez ali eu tenha começado a entender a importância de não me perder dentro do que esperavam de mim.
Exp.: Sua carreira foi além da moda e encontrou espaço na televisão, no cinema e no entretenimento. Existe uma versão sua que só pôde existir quando você saiu da passarela?
G.A.: Com certeza! A versão que fala, que questiona, que conduz. Na passarela eu era muito observada, mas tinha pouco espaço para me expressar. Quando fui para a televisão, eu encontrei a minha voz, e isso mudou completamente a forma como eu me vejo no mundo.
Exp.: Interpretar Elke Maravilha no filme Chacrinha: O Velho Guerreiro é quase um encontro entre duas figuras icônicas. O que essa personagem despertou em você que talvez a moda nunca tenha acessado?
G.A.: A Elke me conectou com uma liberdade muito profunda. Uma coragem de ser quem se é, sem pedir permissão. Na moda existe uma estética, um padrão, mesmo que amplo. A Elke era ruptura pura. Interpretá-la foi um exercício de entrega, de desapego de qualquer julgamento.
Exp.: No Werk It (Universal), você não apenas aparece como também conduz, avalia e direciona. Como é ocupar esse lugar de olhar e formar novos talentos, depois de ter sido por tanto tempo o olhar observado?
G.A.: É muito potente. Porque eu conheço os dois lados. Eu sei o que é estar ali vulnerável, sendo avaliada, mas também sei o que faz alguém se destacar de verdade. No Werk It, eu sinto que estou devolvendo para o mercado tudo o que aprendi — mas com um olhar mais humano, mais consciente.
Exp.: A moda sempre teve uma relação intensa com juventude e renovação. Como foi, para você, transformar o tempo em aliado e não em pressão dentro dessa indústria?
G.A.: Foi um processo. A moda sempre valorizou muito o novo, o jovem, o imediato. Mas eu entendi que o tempo também traz algo que nada substitui: profundidade. Hoje eu me sinto mais segura, mais inteira. E isso tem um valor enorme. Quando você muda o olhar sobre o tempo, ele deixa de ser ameaça e vira construção.
Exp.: Em um cenário onde a imagem é cada vez mais filtrada e construída, o que ainda é genuíno para você quando decide compartilhar algo com o público?
G.A.: A intenção. Eu sempre me pergunto: isso faz sentido pra mim? Eu estou sendo verdadeira aqui? Porque hoje é muito fácil construir uma imagem perfeita, mas eu acredito mais na conexão do que na perfeição. O que é genuíno é o que tem verdade.
Exp.: Depois de viver tantas versões de si mesma (modelo, atriz, apresentadora) quem é a Gianne quando as luzes se apagam?
G.A.: É alguém simples. Que gosta do silêncio, da própria companhia, das pessoas que ama. É a versão que não precisa performar nada. E, pra mim, essa é a mais importante de todas.
Exp.: O que você precisou desaprender ao longo da carreira para conseguir se preservar emocionalmente?
G.A.: Eu precisei desaprender a necessidade de agradar o tempo todo. E também a ideia de que eu precisava corresponder a todas as expectativas. Quando você entende que não precisa caber em todos os lugares, você começa a se preservar de verdade.
Exp.: Existe algum projeto, ideia ou desejo que ainda não ganhou forma, mas que você sente que pode ser o próximo capítulo da sua história?
G.A.: Existe e ele tem muito a ver com propósito. Eu tenho cada vez mais vontade de criar projetos que abram espaço para outras pessoas, que tragam mais verdade para o que a gente vê na moda e na comunicação. O Werk It (Universal) já é um começo disso, mas eu sinto que ainda tem muita coisa pra construir.



























