Flávia Alessandra

A maturidade artística chega quando o tempo deixa de ser apenas passagem e se transforma em consciência. Para Flávia Alessandra, esse momento se traduz em escolhas mais inteiras, personagens mais densos e uma relação ainda mais honesta com a própria trajetória.

Com mais de três décadas dedicadas à dramaturgia, a atriz fala sobre o prazer de “respirar o personagem”, a importância dos silêncios em cena e a coragem de se despir emocionalmente para alcançar a verdade. Da mocinha à vilã inesquecível, da televisão aberta ao streaming, da atuação ao empreendedorismo, Flávia construiu uma carreira marcada pelo desafio constante e pela curiosidade que a move.

Quando o assunto é vida, ela amplia o olhar. Maternidade, parceria, fé e autonomia surgem como pilares de um amadurecimento que atravessa o pessoal e o profissional. Um processo feito de escuta, reinvenção e presença — dentro e fora de cena.

Nesta entrevista exclusiva à Revista Expressão ABC e Litoral, a atriz revela por que acredita que o maior papel de sua vida é ser a roteirista da própria felicidade. A seguir, uma conversa sobre tempo, escolhas e a arte de seguir em movimento.

Expressão: Flávia, você começou na TV ainda muito jovem e já passou por diferentes fases da dramaturgia. Como você enxerga sua evolução artística desde o seu primeiro papel até hoje?
Flávia Alessandra: É lindo olhar para trás e ver essa trajetória, que já tem mais de três décadas! No começo, a gente é mais instintiva. Com o tempo você vai ganhando experiência, que em cena faz toda diferença. A evolução está na profundidade e na segurança. Aprendi a respirar o personagem de verdade, a entender os silêncios, as pausas, a fala, a não ter medo de me expor para trazer a verdade daquelas mulheres. É um amadurecimento como artista. Eu me sinto muito mais dona do meu ofício.

Expr.: Muitos personagens seus marcaram a memória afetiva do público. Existe algum papel que, para você, foi um divisor de águas na sua carreira?
F.A.: Primeiro teve a Dorothy de A Indomada. Foi quando eu me formei e paralelo a isso a Globo me chamou para assinar o meu primeiro contrato longo. Eu já estava indo abrir o meu escritório de advocacia para me sustentar e tive essa oportunidade. Depois veio a Lívia, de Porto Dos Milagres, minha protagonista das 9, que foi um lugar desafiador por ser uma protagonista, uma mocinha que eu não podia deixar cair na mesmice, a novela foi super bem recebida. A Cristina de Alma Gêmea foi um presente. Até então, eu era sempre a mocinha. A Cristina era uma vilã complexa, que o público amava odiar. Foi um divisor de águas porque exigiu um mergulho em um lado que eu nunca tinha explorado, mostrando a minha versatilidade. Depois dela, vieram a Dafne de Caras & Bocas, a Naomi de Morde & Assopra… todos papéis que me permitiram brincar muito com a emoção. E depois veio a Sandra de Êta Mundo Bom, onde eu voltei a fazer uma vilã de novela das 6, com o texto brilhante do Walcyr e pude revisitá-la em Êta Mundo Melhor.
É a primeira vez que eu voltei com um papel e, foi 10 anos depois, onde a personagem estava em outro lugar emocionalmente, em outro ambiente, completamente diferente do que era na primeira novela. Agora ela já voltou como Baronesa. É uma experiência nova e desafiadora e sinto que me fez crescer ainda mais como artista. Vale destacar o sucesso que essa personagem e toda a obra está fazendo, estamos muito felizes com o resultado.

Expr.: O que mais te seduz em um novo personagem: o desafio de interpretar algo completamente diferente ou a possibilidade de aprofundar papéis que dialoguem com a sua essência?
F.A.: Os dois caminhos são muito bons. Quando o personagem é muito próximo de você, tem o desafio de encontrar as nuances da personagem e não da Flávia. O mais importante é o personagem vir rico de sensações, vivências, referências e sentimentos. Eu sou movida pelo desafio. O que me seduz é o que me tira da zona de conforto. Adoro quando me oferecem uma personagem que, à primeira vista, eu penso: “Meu Deus, como eu vou fazer isso?”. É aí que a pesquisa, o estudo e o tesão pelo trabalho se acendem. Se o personagem tiver algo da minha essência, ótimo, é um ponto de partida. Mas o motor é a descoberta do novo. E não digo isso apenas na atuação, mas em meus outros projetos, como o “Pé No Sofá PodCast, Ilha da Tentação, Meu Ritual”, as empresas em que sou sócia, as palestras que eu dou… A novidade me faz muito bem.

Expr.: A televisão está mudando muito com o streaming e novas formas de consumo. Como você se adapta a esse novo cenário e enxerga o futuro da teledramaturgia brasileira?
F.A.: É um momento eletrizante. O streaming nos dá uma liberdade criativa enorme, com formatos mais curtos e narrativas mais ousadas. Eu vejo isso como uma expansão, não uma substituição. A telenovela brasileira tem uma identidade e uma força cultural que são insubstituíveis, ela entra na casa das pessoas todo dia e é uma paixão nacional. Eu me adapto abraçando todas as plataformas. Acho que o futuro é essa convivência entre diferentes mídias e formas de se produzir arte. O importante é o bom conteúdo.

Expr.: Além de atriz, você também é empresária. Qual foi o momento em que percebeu que queria diversificar sua atuação profissional para além das câmeras?
F.A.: Esse desejo sempre existiu, mas me faltava tempo. Tudo que eu me proponho a fazer, eu gosto de fazer bem feito. Não consigo me comprometer com algo e fazer pela metade. Durante muitos anos eu fui engatando um papel no outro que, por um lado, eu me sentia ativa na minha profissão, sempre em movimento, mas me faltava tempo para eu buscar coisas novas. Chegou um momento da minha vida onde eu já estava com a minha carreira como atriz estabelecida e eu me permiti a escolher. Escolher os trabalhos que eu queria fazer, aonde eu queria fazer, com quem, em que momento, em que ritmo e isso foi libertador. Nesse período eu pude de fato exercer essa veia empreendedora que é muito pulsante em mim, sendo sócia da Royal Face, dos salões Marcos Proença…

Expr.: Quais habilidades do universo artístico você leva para o mundo dos negócios — e quais do mundo dos negócios você traz para a sua carreira artística?
F.A.: O mais importante é o espírito de equipe. Ninguém se faz sozinho. Nada acontece sozinho. Uma cena dar certo depende das dezenas de pessoas ao redor. A luz estar boa, a câmera estar focada, o áudio captar, o figurino ser o certo… No mundo dos negócios é a mesma coisa. É o espírito de equipe que faz a gente alcançar os objetivos. Do artístico para os negócios, levo a comunicação afiada, a capacidade de improvisação e de adaptação a mudanças de roteiro (ou de mercado), e a paixão pelo que faço. Não dá para ser um bom ator sem ser um bom observador e um bom ouvinte, e isso ajuda muito nos negócios. Dos negócios para o artístico, trago o planejamento estratégico e a visão de longo prazo para a carreira.

Expr.: Você é mãe de duas filhas em fases diferentes da vida. Como equilibra a rotina intensa de gravações, negócios, família?
F.A.: Não existe “equilíbrio” perfeito, existe escolha e organização. O segredo é ter uma rede de apoio forte e, principalmente, estar 100% presente onde eu estiver. Se estou com as minhas filhas, meu tempo é todo delas. É a lei da compensação e da prioridade. Isso inclusive foi um dos motivos de eu e o Ota termos criado a agência Family, um agência que gere a carreira de toda a nossa família tendo esse pensamento de unidade, qualidade e cuidado, que é tão importante.

Expr.: O que mais te surpreendeu na maternidade e que talvez o público não imagine?
F.A.: O que mais me surpreendeu foi a força que a gente descobre ter. E a minha capacidade de amar de formas completamente diferentes. É um novo amor que nasce a cada filho. O público me vê na TV, mas talvez não imagine que eu sou uma mãe que se preocupa e se importa com as mesmas coisas que as outras mães. As notas na escola, se estão comendo direto, se vão sair de noite, que horas voltam pra casa… os mesmos dilemas.

Expr.: Ao lado de Otaviano Costa, vocês formam um casal que transborda parceria e bom humor, já passaram por muitas coisas, como a cirurgia cardíaca dele. Qual o segredo para manter essa conexão tão forte depois de tantos anos? E o que você viu que mudou depois do susto com ele?
F.A.: Não existe segredo. Precisa ter bom humor e a parceria, de verdade. A gente ri muito junto, é a nossa válvula de escape. Mas o principal é que somos um casal que se admira e se respeita. A gente dá espaço para o outro crescer e nunca para de flertar. O susto com o Otaviano nos fez repensar tudo, reforçou o valor da vida e da saúde.

Expr.: Como vocês lidam com a exposição da vida pessoal, mantendo a privacidade familiar?
F.A.: Somos nós que escolhemos o que expomos. A gente compartilha o que é leve, divertido e o que pode inspirar, como nossa rotina de exercícios ou momentos de descontração. Mas a gente guarda o nosso dia a dia. Existe um muro invisível que a gente respeita.

Expr.: Você também brilha como apresentadora, está com o programa no UOL falando sobre saúde. O que te encanta nessa função que é tão diferente da atuação?
F.A.: O que me encanta na apresentação é a possibilidade de ser eu mesma e de ter uma conversa real. No UOL, falando de saúde, eu posso usar a minha curiosidade para aprender e, ao mesmo tempo, levar informação importante para as pessoas. É uma troca imediata, sem personagem, onde o meu poder de comunicação se conecta com o público de outra forma.

Expr.: Existe algum projeto de TV, streaming, cinema ou até teatro que você ainda sonha em apresentar ou produzir?
F.A.: Mesmo tendo feito muita novela e amando profundamente esse formato, eu sou movida pela curiosidade. Ao longo da carreira, também tive a chance de me experimentar como apresentadora, como no Ilha da Tentação, também com o podcast Pé No Sofá Pod, o programa Viva Bem no Uol, e essa vivência abriu ainda mais meu interesse por novas formas de comunicar e me conectar com o público. Eu tenho muita vontade de fazer um filme bacana no cinema, para ficar eternizado. Tive a chance e sorte de ter personagens marcantes na TV e gostaria de ter isso no cinema. O audiovisual está se reinventando o tempo todo e isso me encanta.

Expr.: Como você se prepara para papéis e projetos que fogem completamente da sua zona de conforto?
F.A.: Com muita pesquisa, imersão e a ajuda de preparadores de elenco. É como se eu me “desmontasse” para o novo. O estudo é a forma mais segura e eficiente de você estar preparado em cena.

Expr.: Qual a principal mensagem que você gostaria que o público levasse sobre quem é a Flávia Alessandra — para além da imagem que a TV mostra?
F.A.: Que eu sou uma pessoa de muita fé por dias melhores, que tem a família como o seu alicerce. Eu sou muito mais pé no chão do que as vilãs que interpreto e muito mais “mão na massa” do que a maioria pensa. Sou uma mulher que não tem medo de se reinventar. Eu na verdade sou muito normal. Mesmo com tudo que me rodeia, eu gosto das coisas mais normais do mundo, como uma praia gostosa, ficar com os amigos, viagem em família…

Expr.: Qual foi a decisão mais corajosa — e ao mesmo tempo mais arriscada — que você tomou na carreira ou na vida pessoal, e que mudou completamente o seu rumo?
F.A.: Acho que foi a decisão de reorganizar a forma como eu conduzia minha carreira. Durante muitos anos, eu vivi um ritmo muito intenso de uma obra emendando na outra, o que me ajudou a construir estabilidade, visibilidade e credibilidade. E eu sou privilegiada por isso. São poucos atores que conseguem um contrato longo em uma empresa e eu tive isso por muitos anos. Mas chegou um momento em que eu senti vontade de respirar novos ares, de ter liberdade para selecionar os trabalhos que fizessem sentido para a fase da vida em que eu estou. É uma escolha que dá frio na barriga, claro, mas que me trouxe uma sensação de autonomia muito grande. E sem esse tempo, eu jamais conseguiria tirar do papel meus projetos de empreender.

Expr.: Se pudesse escrever a sinopse dos próximos 10 anos da sua vida, como ela começaria?
F.A.: Pergunta difícil, até porque hoje estou vivendo algo que jamais pensei 10 anos atrás, mas acho que seria algo como “Flávia Alessandra: ela prova que o maior papel de todos é o de ser a roteirista da própria felicidade”.