Cíntia Chagas

Cíntia Chagas nunca fez da palavra um território de formalidades. Professora de português, escritora, palestrante e fenômeno nas redes sociais, ela construiu uma trajetória marcada pela capacidade de transformar assuntos que poderiam parecer áridos em conversas acessíveis, bem-humoradas e, muitas vezes, provocativas.

Formada em Letras pela UFMG, tornou-se uma das vozes mais conhecidas quando o assunto é comunicação, comportamento e linguagem, acumulando milhões de seguidores e mais de 150 mil livros vendidos.

Em 2026, essa trajetória ganha novos capítulos. Na televisão, Cíntia passou a comandar o quadro “Calma, que eu explico”, no Domingo Espetacular (Record), levando suas tradicionais explicações sobre a língua portuguesa para a TV aberta. Na literatura, também ampliou seus horizontes: depois de se consolidar como autora, estreou na ficção com “Sexo, Amor e Hipérboles”, uma coletânea de contos que explora desejos, contradições e hipocrisias dos relacionamentos contemporâneos.

Em entrevista exclusiva à Expressão, a escritora fala sobre os caminhos que marcaram sua trajetória, a estreia na ficção, a relação com o público e a liberdade de transformar temas delicados em reflexão, sem abrir mão do humor e da provocação que se tornaram marcas de seu trabalho.

Expressão: O “Calma, que eu explico” tem uma proposta de ensinar sem intimidar. Você acha que, durante muito tempo, o ensino da língua portuguesa foi usado mais para constranger as pessoas do que para ajudá-las?
Cíntia Chagas: Não tenho dúvida quanto a isso. Durante muito tempo, confundiu-se o domínio da norma-padrão com uma espécie de superioridade intelectual. O erro, em vez de ser tratado como parte do processo de aprendizagem, tornou-se motivo de constrangimento. A escola participou ativamente disso; a mídia – basta pensarmos em personagens como Chico Bento e a estigmatização da sua fala… Isso afastou muita gente da própria língua. Ensinar português não é humilhar quem não sabe; é oferecer instrumentos para que as pessoas se comuniquem melhor, sobretudo nas situações em que o domínio da norma-padrão é exigido. Conhecimento deve ampliar possibilidades, não produzir medo.

Expr.: Depois de construir autoridade como professora, palestrante, escritora e influenciadora, a televisão representa uma expansão ou uma nova versão da Cíntia que o público ainda não conhece?
C.C.: A televisão é uma expansão. Minha essência permanece a mesma, mas o meio exige outras habilidades. Na sala de aula, em uma palestra, nas redes sociais ou diante das câmeras, há linguagens e ritmos distintos. O desafio é compreender cada ambiente sem perder a identidade. A televisão me permite mostrar outras possibilidades da minha comunicação e alcançar um público que talvez não estivesse comigo nas redes sociais ou nos eventos presenciais.

Expr.: Você trabalha justamente com comunicação, oratória, postura e imagem. Na sua opinião, qual é a maior dificuldade das pessoas hoje: não saber o que dizer ou não saber quem são quando estão falando?
C.C.: Não saber quem são. Quem não tem clareza sobre si dificilmente sustenta uma comunicação coerente. Vejamos… É possível aprender técnicas de oratória, melhorar a postura, ampliar o vocabulário e trabalhar a imagem; mas nenhuma técnica substitui identidade. Quando a pessoa sabe quem é, o que defende e como deseja ser percebida, a comunicação deixa de ser uma tentativa de agradar a todos e passa a ter direção. Aqui, a técnica aparece e completa eficazmente o trabalho.

Expr.: “A Dor Comum” nasce de uma conversa entre duas mulheres com trajetórias e visões de mundo distintas. É possível discordar profundamente de alguém e, ainda assim, construir uma conversa verdadeira?
C.C.: Não apenas é possível como é necessário. Temos confundido discordância com inimizade. Uma conversa verdadeira não exige concordância; exige disposição para ouvir e maturidade para reconhecer que o outro pode enxergar o mundo de maneira diferente. Se só conseguimos conversar com quem confirma aquilo em que já acreditamos, não estamos dialogando. Estamos apenas procurando eco e alimento ao ego.

Expr.: O que significa “potência coletiva” para você fora do discurso? Em que momento da sua vida você sentiu, na prática, a força de outras mulheres?
C.C.: Potência coletiva, para mim, não é concordância permanente nem solidariedade automática. É perceber que mulheres diferentes podem se fortalecer sem precisar apagar suas individualidades. Aquilo que já disse aqui sobre essência… Eu reconheço a potência coletiva nos encontros profissionais, nas conversas, nas trocas e nas oportunidades em que uma mulher abre espaço para que outra também avance. Há muita força quando a admiração deixa de ser competição e se transforma em construção.

 

“Conhecimento deve ampliar possibilidades, não produzir medo.”

Expr.: Você construiu uma imagem pública muito forte. Existe alguma diferença entre a mulher que o público acredita conhecer e a mulher que você é quando não precisa performar para ninguém?
C.C.: Naturalmente. A imagem pública é um recorte. O público conhece aquilo que escolho comunicar, e isso não significa falsidade. Eu vejo como limite. Nenhuma pessoa cabe inteiramente em uma entrevista, em um vídeo ou em uma postagem. Há uma Cíntia pública, profissional, muito consciente da própria comunicação, e há dimensões minhas que pertencem à intimidade.
Encontro liberdade na preservação delas, as Cíntias.

Expr.: Qual foi o preço de se tornar uma mulher que tem opinião, autoridade e presença pública?
C.C.: A exposição. Quanto mais pública se torna a sua voz, mais pessoas se sentem autorizadas a emitir opiniões sobre você — inclusive sobre aspectos que nada têm a ver com o seu trabalho. Uma mulher assertiva ainda incomoda porque frequentemente se espera dela uma espécie de pedido de desculpas pela própria firmeza. Enfim, aprendi que ter voz também significa aceitar que nem todos gostarão do que ela diz.

Expr.: Você fala para milhões de pessoas sobre comunicação. Mas existe algo que você ainda sente dificuldade de dizer?
C.C.: Penso que dominar técnicas de comunicação não elimina a complexidade das relações humanas. Há conversas difíceis para todos nós, sobretudo quando envolvem afeto, frustração ou vulnerabilidade. Saber falar bem não significa ter sempre as palavras certas. Às vezes, maturidade comunicativa é justamente reconhecer que nenhuma frase será perfeita.

Expr.: Se você pudesse explicar alguma coisa sobre você mesma para o público, no melhor estilo “Calma, que eu explico”, o que seria?
C.C.: Eu diria: “Calma, que eu explico: firmeza não é arrogância”. Uma mulher pode conhecer o próprio valor, estabelecer limites, defender as suas ideias e ocupar o seu espaço sem precisar pedir desculpas por isso.
Confundimos facilmente segurança com arrogância (o que impressiona), especialmente quando a segurança vem de uma mulher.

Expr.: Você já é uma referência no ensino da língua portuguesa, na oratória e no comportamento profissional. Como foi dar o passo para a ficção e mergulhar na escrita de 30 contos eróticos? Qual foi o maior desafio nessa transição?
C.C.: Foi muito natural. Eu apenas passei para o papel histórias do meu imaginário e da minha vivência.

Expr.: Participar de três mesas de destaque na Bienal do Livro SP em um único ano (discutindo desde dores femininas na ficção até misoginia) consolida um momento de grande expansão. O que essa presença significa na sua trajetória?
C.C.: Significa a possibilidade de ampliar uma conversa que começou em outros espaços. Minha trajetória nasceu profundamente ligada à educação e à comunicação, mas nunca acreditei que uma pessoa precise permanecer confinada à primeira definição que fizeram dela. Estar na Bienal discutindo literatura, comportamento e questões femininas representa justamente essa ampliação. Não se trata de abandonar quem fui para me tornar outra pessoa; trata-se de permitir que novas dimensões do meu trabalho também encontrem espaço. Defendo que sejamos (e somos) seres em constante transformação.