Luiza Brunet

Expressao

De modelo internacional a empresária e ativista, Luiza Brunet construiu uma trajetória marcada por reinvenções, conquistas e transformações que ultrapassam o universo da moda. Ícone das décadas de 1980 e 1990, conquistou espaço na televisão e no empreendedorismo, tornando-se uma das personalidades mais reconhecidas do Brasil. Com o passar dos anos, ampliou sua atuação para além da carreira artística e passou a dedicar parte de sua trajetória à defesa dos direitos humanos e ao enfrentamento da violência contra mulheres e meninas. Como embaixadora da Organização Internacional para as Migrações (OIM), também se aprofundou nas questões relacionadas à migração e ao tráfico de pessoas, levando conscientização a diferentes regiões do Brasil e do mundo.

Em setembro de 2026, como embaixadora do Best of Brazil Global Awards desde sua criação, ela esteve na premiação realizada no Statue of Liberty Museum, em Nova York, que reuniu brasileiros de diferentes países para celebrar suas conquistas e contribuições no exterior.
Na ocasião, também participou da entrega do Prêmio Luiza Brunet de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher, iniciativa que reconhece o trabalho de pessoas comprometidas com essa causa.
Em entrevista exclusiva à Expressão, ela relembra momentos marcantes de sua carreira, reflete sobre as transformações nos padrões de beleza, fala sobre maturidade, autoestima e representatividade e compartilha como experiências pessoais influenciaram seu compromisso com a defesa das mulheres. Uma trajetória que mostra como a capacidade de se reinventar pode abrir caminhos para novos propósitos e transformações sociais.
Confira:

Expressão: Você acompanha o Best of Brazil Global Awards desde a criação da premiação. O que mudou na forma como você enxerga a força e a representatividade dos brasileiros que vivem fora do país ao longo desses anos?
Luiza Brunet: A premiação é muito importante para Brasileiros que vivem em diversos países. São empreendedores, em diversas áreas, música, moda, restaurantes, empresas de cosméticos, jóias, agência de viagem, área da beleza etc.

O prêmio melhor do mundo trás esperança e motivação para todos, afinal o reconhecimento é extremamente valioso. São pessoas que chegaram aqui e se esforçaram muito para abrir seus negócios, mulheres empreendedoras e mães solo.

Expr.: Estar diante da Estátua da Liberdade, um dos símbolos mais conhecidos do mundo, para celebrar brasileiros deve ter sido um momento especial. O que passou pela sua cabeça ao participar dessa noite?
L.B.: Os eventos da premiação priorizam lugares icônicos, isso traz glamour, sofisticação e ineditismo, os anteriores foram escolhidos da mesma forma, algo que de fato impacta a todos.
Em NY nas ilha da Estátua da liberdade foi tudo muito organizado, saímos em um belo barco todos arrumados, felizes e curiosos . Tudo registrado, brindes e a pergunta: onde será o próximo?
Tudo correu dentro do previsto pois a organização está perfeita. Como parceira e madrinha aplaudo principalmente ao Rafael Santos, pois como brasileiro imigrante pensou com carinho, e realizou um evento que já tem um legado de respeito e valores.

Expr.: O Prêmio Luiza Brunet de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher leva seu nome e reconhece iniciativas nessa área. O que significa para você ver essa pauta associada à sua trajetória e transformada em uma premiação?
L.B.: Quando Rafael falou da possibilidade de criar um prêmio, valorizando as mulheres que criam políticas públicas de proteção e ajuda às vítimas de violência de gênero. Fiquei muito feliz pois é um trabalho de excelência de mulheres voluntárias.
O prêmio é um incentivo para que elas consigam continuar esse trabalho de propósito e proteção da comunidade imigrante brasileira.

Expr.: Depois de Londres e agora Nova York, o Best of Brazil Global Awards vem ganhando espaço internacional. Que Brasil você acredita que essas celebrações ajudam a mostrar para o mundo?
L.B.: Somos um povo resistente e gostamos de desafios. O evento demonstra exatamente isso, vamos criar pontes e acesso ao nosso povo.
O evento desse porte sendo internacional conecta o Brasil com o mundo. E traz parceiros para um evento internacional.

Expr.: Você começou a trabalhar ainda na infância e construiu uma carreira que te levou das dificuldades do subúrbio carioca às passarelas e à televisão. Em que momento percebeu que sua história poderia ir muito além das circunstâncias em que nasceu?
L.B.: Precisamos sonhar e pensar grande. Sair do campo no interior do Brasil, nascer em uma família extremamente humilde, não impediu que eu fizesse diferente, mas a responsabilidade e dedicação assim como o profissionalismo ajuda e muito.
Não devemos desistir de sonhar ou se não der certo de primeira, continue tentando até estar pronta. Tenho orgulho da minha história do que consegui conquistar e construir.

Expr.: Você foi um dos grandes símbolos de beleza dos anos 1980 e 1990 e hoje também fala muito sobre envelhecimento, maturidade e autoestima. Como mudou sua relação com a própria imagem ao longo dessas décadas?
L.B.: A moda nos anos 80 e 90 era muito personalizada, autoral e não tinha globalização ainda. As modelos e manequins copiavam um padrão inesperado – loiras, altas e magras –, eu consegui quebrar paradigmas, tornando-me referência como modelo exclusiva de marcas relevantes no Brasil.
Passei por diversas transformações ao longo da minha trajetória, fui modelo internacional, atriz, com mais de 10 novelas, apresentadora e empreendedora, com uma parceria de 36 anos com a multinacional AVON, desenvolvendo uma linha de perfumes, entre outros produtos.
Hoje, na maturidade, continuo sonhando em crescer e aprender. Em 2016, comecei a estudar a violência de gênero e doméstica contra as mulheres, motivada também pela minha própria história: sofri diferentes tipos de violência durante um relacionamento de quase seis anos.
Aprendi que é importante reconhecer nossos limites e valorizar aquilo que conseguimos fazer. Nem sempre podemos mudar tudo, mas cada passo já representa muito.

“Nem sempre podemos mudar tudo, mas cada passo já representa muito.”

Expr.: Em uma carreira tão longa, você atravessou diferentes padrões de beleza e transformações no mercado da moda. O que você acredita que as novas gerações de modelos enfrentam hoje que é muito diferente do que você viveu?
L.B.: Muita coisa mudou. A indústria da moda se tornou mais agressiva, e foram necessárias denúncias de diversos abusos para que alguns padrões estabelecidos começassem a mudar.
Hoje, a inclusão é fundamental. Todos somos potenciais consumidores e queremos nos sentir representados. A volta de ex-modelos mais maduras mostra que o etarismo é, de fato, apenas um número. Mulheres trans conquistaram espaço, assim como a comunidade LGBTQIAPN+ e pessoas negras, que vêm mostrando sua beleza e seu potencial. E é assim que deve ser.
Esse é o caminho. Se uma marca não acompanha esses novos paradigmas, a escolha é simples: não consuma seus produtos.

Expr.: Sua trajetória também passou por experiências pessoais muito difíceis, que acabaram influenciando sua atuação na defesa das mulheres. Quando você percebeu que falar publicamente sobre a própria história poderia ajudar outras mulheres?
L.B.: 2016 foi um ano crucial. Precisei me reinventar, e essa foi a melhor escolha e decisão que poderia ter feito.
Hoje tenho certeza do quanto foi importante me posicionar sobre violência doméstica, direitos humanos, direitos das mulheres e meninas, além de outras questões atuais.
Como embaixadora da OIM para migração e tráfico de pessoas, precisei fazer uma imersão profunda nesses temas. Tenho viajado pelo mundo e pelo Brasil, passando pelos 27 estados e seus municípios, conhecendo de perto as mazelas da nossa sociedade e também boas políticas públicas que dão certo.
Essa foi uma escolha de propósito. Se você está buscando algo para fazer, estude e, se puder, trabalhe com pessoas. Transforme vidas.

Expr.: Depois de tantas décadas de carreira, como você cuida hoje do seu bem-estar e o que a maturidade te ensinou sobre olhar para si mesma?
L.B.: A maturidade me ensinou que cuidar de mim não é egoísmo, é uma necessidade. Hoje, valorizo muito mais a minha paz, minha saúde física e emocional e a liberdade de fazer escolhas que me façam bem. Aprendi a respeitar meus limites, a dizer não quando necessário e a não permanecer onde não sou respeitada. Envelhecer, para mim, é um privilégio. E chegar a essa fase da vida com autonomia, dignidade e vontade de continuar realizando sonhos é uma grande conquista.

Expr.: Você transformou experiências da sua própria trajetória em uma atuação importante na defesa das mulheres. O que ainda te move nessa causa e que projetos gostaria de desenvolver daqui para frente?
L.B.: O que me move é saber que, todos os dias, milhares de mulheres continuam vivendo situações de violência, muitas vezes em silêncio. Desde que decidi tornar pública a violência que sofri, essa luta passou a fazer parte da minha história. Quero continuar ampliando esse trabalho por meio do Instituto Luiza Brunet, de palestras, ações educativas e projetos que levem informação, acolhimento e conscientização. Acredito muito na educação como instrumento de transformação. Enquanto houver uma mulher vivendo com medo, essa causa continuará sendo uma responsabilidade de toda a sociedade. E eu quero continuar fazendo a minha parte, usando a minha voz e a minha história para ajudar a transformar essa realidade.